Como é a produção de lúpulo na Serra Catarinense?

O cultivo do lúpulo é pouco explorado no Brasil, tendo uma pequena área, que em sua maioria compõe-se de áreas testes, plantadas por entusiastas, sendo de aproximadamente 18 hectares, distribuídos entre os estados do Sul, Centro-Oeste e Sudeste do país. A produção na Serra Catarinense conta com a participação de mais de 10 produtores e as áreas ainda são pequenas, inferiores a um hectare. Todavia, a produção está em expansão, graças ao grande interesse do movimento cervejeiro. O setor tem sido impulsionado por empresas da iniciativa privada, entidades públicas, como por exemplo, os trabalhos que estão sendo desenvolvidos pela Universidade do Estado de Santa Catarina (CAV/Udesc), que é pioneira em pesquisa sobre o cultivo do lúpulo no Brasil, sendo um centro gerador de conhecimento e propiciando a expansão do cultivo no país. Com isto, produtores estão com respaldo para produzir e a cadeia de produção está sendo estruturada.

Que trabalhos são desenvolvidos para aumentar a produção de lúpulo na nossa região?

O Grupo de Fruticultura, pertencente ao CAV/Udesc, vem desenvolvendo trabalhos a fim de avaliar e disponibilizar ao setor produtivo informações técnico-científicas, que contemplem estudos de adaptação de diferentes cultivares de lúpulo, visando aumentar índices produtivos e qualitativos, caracterizações microclimáticas de potenciais regiões, técnicas de manejo, produção de mudas de elevada qualidade, assim suprindo a demanda interna desta recente cadeia produtiva. Além de trabalhos que estão avaliando a qualidade química dos cones, como alfa ácidos, beta-ácidos e óleos essenciais, e estudos relacionados à produção de cervejas com os cones de lúpulo produzidos na região da Serra Catarinense.

E diferenças geográficas da produção de lúpulo?

O sucesso no cultivo do lúpulo está atrelado a vários fatores, e dentre eles as condições edafoclimáticas são de extrema importância. Atualmente informações quanto às exigências microclimáticas estão sendo geradas e caracterizadas as melhores regiões da Serra Catarinense, que propiciem produtividade aliadas a qualidade de cones. Mas sabe-se que a faixa ideal para o desenvolvimento do lúpulo está entre 16° a 18 °C, as quais estimulam seu crescimento e desenvolvimento. O lúpulo responde também à soma das temperaturas efetivas do ar, desde a brotação até maturidade dos cones. A soma das temperaturas efetivas varia entre 1.751°C a 2.900ºC, dependendo da cultivar. Quanto a precipitação no período de crescimento, esta não deve ser inferior a 300 mm e deve ser bem distribuída. Outro fator a ser considerado é a exigência de luz. Esse quesito deve ser levado em conta na localização do plantio do lúpulo.

Você pesquisa lúpulo há quanto tempo e como é a pesquisa?

Iniciei as pesquisas em 2017, no Centro de Ciências Agroveterinárias da Universidade do Estado de Santa Catarina (CAV/Udesc), no município de Lages, juntamente com o grupo de pesquisa da Fruticultura, liderado pelos professores Leo Rufato, Aike Anneliese Kretzschmar Francine Regianini Nerbass, Antonio Felippe Fagherazzi e Amauri Bogo. Estou trabalhando há três anos com a cultura e as pesquisas propiciaram a defesa da minha tese de doutorado, sendo a primeira tese defendida no Brasil com a cultura do lúpulo. A tese foi intitulada “Adaptabilidade de Cultivares de Lúpulo na Região do Planalto Sul Catarinense”. As pesquisas realizadas pelo grupo também possibilitaram a escrita de um livro sobre Aspectos Técnicos da Cultura do Lúpulo, sendo uma das primeiras obras brasileiras sobre esta cultura.

Quais os tipos que existem e quais são plantados na Serra?

Existe mais de 260 cultivares de lúpulo catalogadas, cada uma com característica apreciadas pela indústria cervejeira com relação ao amargor, aroma e sabor. No Brasil mais de 10 cultivares foram registradas junto ao Mapa, e aqui na região serrana acredito que a cultivar mais plantada é a cascade, mas também temos as cultivares Columbus, Chinook e Yakima Gold, porém não há um levantamento estatístico de quais cultivares de lúpulo são cultivadas a nível nacional nem estadual. Essas informações são cruciais para o acompanhamento do desenvolvimento da cultura.

Mariana Mendes Fagherazzi, doutora, pesquisadora e agrônoma   Foto: Adecir Morais